O que é

O Programa Pedagogia da Imagem está voltado prioritariamente para o atendimento das populações localizadas na periferia da cidade de Campinas, que normalmente não possuem acesso a espaços e oportunidades de fruição de bens culturais como a fotografia e o cinema. Procuramos enraizar nossas ações nessas comunidades por meio da formação de agentes multiplicadores e da transformação dos espaços educativos (escolas, ONGs e outros) e de convívio ali existentes em pontos onde se realizem exposições e exibições, e, mais do que isso, em locais de referência para a produção audiovisual popular, que tematize a identidade e resgate e preserve a memória dos grupos locais. Nossa ação também abrange populações em situação de vulnerabilidade social, tais como moradores de rua e adolescentes vítimas de exploração sexual ou que cometeram infrações, por meio das parcerias com ONGs e serviços municipais voltados ao seu atendimento. Embora com foco em Campinas, mais recentemente temos acolhido a demanda de educadores de escolas de cidades vizinhas, como Hortolândia, Sumaré, Jaguariúna e Paulínia.

Contexto sociocultural e histórico
Campinas é uma metrópole com cerca de um milhão de habitantes, cujo crescimento acelerado deu-se, a partir dos ano 50, com a atração de migrantes de diversas regiões do país, para atuar como força de trabalho na indústria, construção civil e serviços. Sem um planejamento adequado para acolher essa população, a cidade viu a ocupação urbana expandir-se desordenadamente em direção à periferia. Os novos bairros, formados irregularmente, não ofereciam condições de vida adequadas aos seus moradores. Estes à margem das condições de cidadania, em um novo espaço urbano onde não conseguiam restabelecer os antigos laços sociais, viram-se em situação de vulnerabilidade. No meio social, passaram a ser discriminados e estigmatizados como violentos. Tal situação contribuiu para o esfacelamento de suas identidades socioculturais (sem espaços-tempos para se expressarem e, por vezes, deliberadamente ocultadas para evitar a discriminação) e para a perda de sua memória. Como consequência, resultam a desvalorização do patrimônio cultural, a perda do sentido de coletividade, a visão do espaço público como espaço de disputa e não de solidariedade, o isolamento e a exclusão social.

Cultura como direito de cidadania
A partir dos movimentos populares ocorridos nos anos 80 e, especialmente, ao final da década, com a promulgação da Constituição de 1988, essa população passou a contar com uma rede de proteção social que visa a garantir os direitos de cidadania. Desde então, os movimentos populares e os agentes dessa rede vêm desenvolvendo diversas ações e programas com vistas à superação da situação de injustiça social. Tais programas, contudo, não podem desconsiderar uma dimensão essencial da existência e realização plena do ser humano: o direito de cada um descobrir-se produtor de cultura e história – mais do que espectador/ consumidor ou fruidor de bens culturais. Entendemos que incentivar a produção cultural que expressa e valoriza as identidades dos grupos excluídos é parte integrante do próprio processo de transformação social.

Audiovisual: linguagem da participação
Nesse contexto, o audiovisual adquire relevância como uma linguagem que organiza as formas contemporâneas de visibilidade e participação na esfera pública. Por meio dele, é possível conferir legitimidade às memórias e identidades dos grupos sociais, não de maneira nostálgica, mas integrada ao fazer histórico, como forma de expressão de demandas e visões de mundo, de questionamentos, intervenção e protagonismo social. Além disso, o audiovisual é uma poderosa ferramenta para integração e colaboração entre os agentes da rede de proteção social e os movimentos populares, na investigação da realidade e produção de conhecimento, na quebra de preconceitos e na valorização das culturas e saberes que não passam pelos canais tradicionalmente legitimados, como a educação formal, a academia e a grande mídia.

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